Vamos à 3ª parte do conto, galera! Essa é de chorar....
ALESSIA
Não, eu só podia estar tendo um pesadelo! Na minha idade ter que
voltar a usar fraldas? Como eu sempre costumo dizer quando o negócio
fica feio, joguei pedra na cruz. Eu não me conformava. Tudo bem que era
só pra hora de dormir, mas mesmo assim estava me sentindo uma pirralha de
2 anos de idade com aquelas fraldas e pijama. Ainda pra ajudar, meu pai
me viu nua. "Deus, diz que essa humilhação vai acabar logo, por
favor..." Rezei em pensamento levantando a mão direita. Nem vontade de
dormir eu tinha mais. Fiquei lá na internet vendo qualquer coisa e só
fui deitar mesmo quando o tédio veio. O outro dia seria sábado, então
não tinha que acordar cedo.
Já deviam ser umas 10 da manhã quando o
velho veio me chamar. Odeio ficar assim, mas eu estava com um misto de
vergonha e "raivinha" dele...
- Hora de acordar, minha dorminhoca... - Disse já com a mão nas
cobertas pra puxar.
- Ai pai, hoje é sábado... me deixa dormir... - eu respondi com voz
de sono e sem abrir os olhos.
- Mas já passam de 10:30, lembra que eu falei que íamos aproveitar o
dia? Pensei em darmos uma volta no parque e fazer algumas outras coisas,
que tal?
- Ah, sei lá...
- Hum... ainda tá magoadinha com papai, é? - Disse ele passando a
mão no meu rosto.
Quando ele fala assim eu derreto por dentro, mas não gosto muito de
dar o braço a torcer, sou dura na queda!
- Tente se colocar no meu lugar só um pouquinho. Não é fácil pra eu
me acostumar com o que aconteceu e...
- Eu sei, amorzinho, - papai me interrompeu. - mas pense no lado
bom... pelo menos sua caminha não fica molhada e cheirando mal.
- é, pode ser.
- ah, filhota, desfaça esse biquinho e vamos aproveitar o dia lindo
que está lá fora, isso vai te fazer distrair a cabeça também...
Resolvi levantar sem nada dizer. Quando me mexi, senti o peso
daquela fralda.
- Vamos ver se a bebê molhou a fraldinha? - Disse meu pai com uma
voz infantilizada.
- Pai, pelo amor de Deus, eu já pedi pra você não me tratar assim!
- ai de novo? Desculpa, filha... eu ainda vou me acostumar...
- é bom, porque já basta eu ter que suportar a humilhação de usar
isso.
Ele ficou quieto e começou a me despir. Pro meu azar, a fralda
estava quase vazando.
- Nossa! Essa foi por pouco... - Disse ele removendo-a e me
limpando.
- Que porcaria... - Disse eu baixinho e tampando a boca.
- Como? Não ouvi, meu anjo... tire a mãozinha da boca pra falar.
- Ahn, nada não, pai, só pensei alto...
- Tá, agora vá se arrumar, mas não tome banho ainda. Deixe pra fazer
isso quando voltarmos porque vamos dar uma corridinha no parque.
- Corridinha? ai ai... não gosto disso, mas vou fazer uma caridade
pro senhor...
- Hum, como é generosa essa minha filhota... agora ande de uma vez
que depois do parque quero te levar pra almoçar naquele lugar que você
gosta.
- Opa, aí a conversa muda...
- Interesseira! Te pego, hein?
- Depois tá, pai? Agora vou pro banheiro.
Fui lá, escovei os dentes, ajeitei o cabelo, me vesti e desci. Ele
já estava me esperando com um pequeno sanduíche e um copo de coca.
- Aqui está, pra você não ficar com tanta fominha até a hora do
almoço...
- Ah, valeu, pai... mas você ainda continua falando comigo daquele
jeito...
- Ai ai... um dia eu juro que aprendo. - Disse ele mordendo um
pedaço do seu sanduíche.
Eu também comecei a comer em silêncio. Assim que terminamos,
juntamos as poucas louças que estavam na mesa, ajeitamos a cozinha e
saímos.
Fomos andando até o parque. Quando estávamos quase chegando lá, meu
pai disse:
- Vamos apostar uma corrida? Tudo bem que eu tenho quase certeza que
já ganhei, mas...
- Iiii, nem vem! Eu corro mais que você, já não tem idade pra
sair a toda velocidade por aí! - Disse eu já largando sem nem esperar
ele tomar fôlego.
- Espere, trapaceira! isso não vale...
Eu já estava no mínimo há uns 50 passos à frente.
- Vem me pegar, pai! Não diz que sabe correr? Então prova!
Continuei correndo, mas como não estava muito acostumada, logo
cansei e ele me pegou.
- Consegui, sua sem-vergonha! - Disse, me abraçando
- Tá bom, vai... essa acabou comigo... - Eu rebati, ofegante.
- Ow tadinha... que tal tomarmos uma água de coco agora?
- ótima idéia.
Compramos a água de coco, tomamos e depois ele falou:
- Olha, filha, e se a gente for ver os patinhos como fazíamos quando
você era criança?
- Você que sabe...
- Tem certeza?
- Vamos...
Demos as mãos e fomos pra perto da lagoa olhar os lindos
patinhos que lá estavam. Nos sentamos na grama, papai passou o braço em
volta do meu ombro e quando olhei pro seu rosto, vi que estava com uma
expressão que eu não sabia descrever bem, mas parecia um pouco triste
- O que houve, pai? Tá tudo bem?
- Sim, filha... só acho que ando meio nostálgico... sabe, olhando os
patinhos aqui, igualzinho fazíamos quando você era pequenininha...
Eu cheguei mais perto e o abracei forte.
- Pai, eu te amo muito... sei que um dia vou ter que crescer, mas
nunca vou deixar de ser sua filhinha...
- Eu sei, meu anjo, a verdade é que pros pais os filhos realmente
nunca crescem e pra mim você vai ser sempre minha bebezinha... sabe,
ontem a hora que fui te arrumar pra dormir me deu uma coisa assim que...
E aqui ele se calou e seus olhos encheram de lágrimas.
- Pai, tem certeza que tá tudo bem?
- Ahn, tá sim, filha... - ele disse e respirou fundo, como que pra
afastar as lágrimas.
- Acho que já podemos ir... ainda quero te levar pra almoçar,
lembra?
- Ah, é verdade, então vamos.
Me levantei e quando ele fez o mesmo, como não tinha ninguém perto
eu o surpreendi com um daqueles meus abraços de urso tão seus
conhecidos.
- Ai nossa, fazia tempo que você não me dava esse abraço! - Disse
com uma voz meio gemida porcausa do aperto.
- Hum, não gostou? Devolve... - respondi com um biquinho do tipo só
pra fazer manha.
- Quer mesmo que eu devolva? - Disse ele já me pegando e me rodando
ali mesmo no meio do parque.
- ai ai,, para, para! Vou ficar tonta e além do mais ainda tem um
restinho do sanduíche que eu comi aqui e o senhor não quer que
volte, quer?
Ele me soltou e só pra sacanear eu fingi que ia colocar o dedo na
garganta.
- Ei, também não precisa forçar a amizade né, Alessia?
- Ah, pai, só pra não perder o costume...
- Uhum, sei... vai ver só...
- Então tenta me pegar! - Eu disse, saindo em disparada.
Ele veio atrás e dessa vez não conseguiu. Entrei em casa antes
e já fui subindo pra tomar banho. Só ouvi as risadas dele quando entrou.
Depois que nós dois estávamos prontos, saímos dessa vez de carro e
fomos almoçar no lugar que eu mais gostava. Comemos umas batatas e
outras coisinhas também. Quando estávamos indo embora,
ele falou com aquele sotaque puxado que eu acho engraçado:
- E então, italianinha da minha vida, que tal um gelato italiano
agora? Tem uma gelateria aqui perto...
- Hum, se quiser eu topo...
- Então vamos.
Fomos lá e cada um pediu um tipo de sanduíche de sorvete com
bolacha. Comecei a comer devagar como sempre, até que uma hora meu
pai pegou um guardanapo e passou no meu rosto dizendo:
- Sujou um pouquinho aqui, anjo...
- Pai, era só ter me avisado disfarçadamente que eu limpava, não
precisava ter feito isso por mim.
- Tá bom,, não precisa ficar bravinha... - disse ele me dando um
beijo babado de sorvete e me sujando mais ainda.
- Pai! aí não, né? - Eu disse e fiz o mesmo com ele.
- Pronto, agora estamos quites!
Ele tentou forçar uma cara séria, mas não conseguiu. Então, nos
limpamos e fomos pra casa. Lá chegando, como ainda era cedo resolvi ir
pro computador.
- Eita vício... - Falou ele lá da sala onde estava. - Se
puder, desce aqui pra gente assistir um filme mais tarde, tá?
Me senti até um tanto culpada.
- Ok, só vou ver se alguém me mandou alguma coisa e já desço... -
Falei me sentando na cadeira do computador.
Realmente só entrei um pouquinho, vi o que tinha que ver e desci lá
pra assistir.
- ó, até que enfim a madame arrumou um tempo pro pobre velho aqui
né?
- Iiii olha o drama... e então, que filme vamos assistir, velho?
- Olha, não fala assim comigo, garota!
- Foi o senhor que se chamou disso primeiro, não tenho nada a ver
com a questão.
- Hum, agora se faz de vítima, né? Pede desculpa... - Disse,
vindo pro meu lado com uma cara de quem ia aprontar comigo.
- Eu não, não fiz nada...
- A é? Vamos ver se pede desculpa ou não...
Começou a me fazer muitas cócegas e eu não conseguia parar de rir.
- E então?
- Hahahahaha paraaaa!
Em meio às risadas eu senti uma coisa que me deixou assustada,
comecei a me molhar! Dei um grito agudo.
- O que aconteceu, filha? - Disse ele olhando pra baixo e já
vendo com os próprios olhos a resposta da pergunta.
Eu não conseguia dizer nada, apenas comecei a chorar.
- Calma, lindinha, vamos já limpar isso... não fique assim, foi
minha culpa!
- Que tragédia... logo eu que não suporto nada sujo ainda mais em
mim!
- Essas coisas podem acontecer... mas diga olhando nos meus olhos,
você se esqueceu de ir ao banheiro, Alessia?
- Como assim? Claro que não... eu vou sempre que me dá vontade...
- Tem certeza? Fica tanto nesse computador que eu tenho sérias
dúvidas se você vai ao banheiro.
- Vou sim, pai... agora deixa eu ir me trocar, pelo amor de
Deus... - Disse eu já levantando e pegando o rumo do banheiro.
- Ei,, só uma coisa, acho que já vou te pôr a fralda, vai que
acontece de novo?
- AAAh tenha dó, né? Estamos no meio da tarde...
- Eu sei, mas não vamos mais sair e é melhor prevenir. Ah,, e tem
outra. Quem dá a última palavra aqui sou eu e você vai colocar a fralda
agora e pronto!
Quando ele fala assim é melhor eu ficar na minha... nunca levei um
tapinha nem de leve, mas tenho medo quando a bronca é nesse tom. Não me
restou outra saída a não ser ir pro banheiro e aceitar o que viria
depois. Tomei banho e quando ia saindo enrolada na toalha já estava ele
lá no meu quarto:
- Venha aqui, amor, vamos colocar a fralda...
- Ai meu Deus... por que isso? ainda não tá nem de noite...
- Mas veja só, é melhor pôr agora, que aí se você ficar distraída
depois não tem perigo de acontecer de novo.
- O que eu posso fazer, senão concordar?
- Filha, tudo isso é pro seu bem, minha vida...
Resolvi me calar. Não tinha jeito mesmo. Deixei que me colocasse a fralda
e fomos assistir um filme de comédia.
Quando estava mais ou menos na metade ele acabou cochilando e
encostando a cabeça no meu ombro. Deixei, mas como vi que estava
perdendo uma parte engraçada do filme, o chamei:
- Pai, você dormiu aí...
- Hum... ai filha, desculpa... perdi muita coisa do filme?
- Só umas partes engraçadas...
Nessa hora eu resolvi dar uma zoada. Claro que não tinha acontecido
isso, mas só pra ver o que ele ia dizer, fingi que estava limpando meu
ombro como se estivesse babado.
- Você dormiu tanto que chegou a me babar!
- Ah, poxa vida, não acredito que fiz isso!
- é, vai vendo. - E continuei "limpando" - Eu nunca fiz isso com
você...
- Tem certeza que não? Eu sei de uma história que é justamente sobre
isso...
- Duvido!
- Ainda tenho a prova... uma vez quando você devia ter uns 3
aninhos, acordou chorando e dizendo que tinha bicho no seu quarto. Eu
não disse nada, apenas te peguei e te levei pra minha cama. Quando
acordei no dia seguinte tinha alguém com a boquinha na minha testa e meu
travesseiro todo melado hahahaha
- AAAh, conta outra, essa não cola!
- Vou te mostrar a prova do crime então...
Ele levantou, foi até o quarto e voltou trazendo um album de fotos
com a capa vermelha escrito MEMÓRIAS e me mostrou uma foto onde
realmente estava eu ocupando só os travesseiros e o dele todo manchado.
Tentei disfarçar o pouquinho de vergonha que senti no fundo:
- Essa coisa gorda aqui era eu?
- Coisinha gordinha linda de papai, um pacotinho de fofura!
- Hum, até que eu não era feia...
Ele me imitou falando isso e completou:
- Era a coisa mais linda do mundo, um retrato perfeito de sua mãe...
- A mamãe... o senhor não fala muito dela... não tem nenhuma foto
pelo menos?
- Não, filha, sofri muito quando ela se foi e não suportei nem
guardar as fotos. A única lembrança que tenho dela está olhando pra mim
agora...
Não pude conter uma lágrima que quis sair. deixei ela rolar.
- Eu queria tanto ver como ela era...
- Basta se olhar no espelho, meu anjo... Seu rosto é igualzinho ao
dela...
- Poxa vida... bom, vejo que lembrar dessas coisas te faz mal, então
não vamos mais falar disso, tá?
- Tá bom filha... sua mãe é a pessoa que mais amei na vida antes de
você nascer... depois dela eu não consegui gostar de mais ninguém...
- Chega pai... senão vou começar a chorar aqui...
Nos abraçamos e ficamos ali por um bom tempo.
CONTINUA!!!
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