sexta-feira, 26 de abril de 2013

Outra vez, bebê! Conto de Alessia parte 3

Vamos à 3ª parte do conto, galera! Essa é de chorar....


        ALESSIA
 
     Não, eu só podia estar tendo um pesadelo! Na minha idade ter que
voltar a usar fraldas? Como eu sempre costumo dizer quando o negócio
fica feio, joguei pedra na cruz. Eu não me conformava. Tudo bem que era
só pra hora de dormir, mas mesmo assim estava me sentindo uma pirralha de
2 anos de idade com aquelas fraldas e pijama. Ainda pra ajudar, meu pai
me viu nua. "Deus, diz que essa humilhação vai acabar logo, por
favor..." Rezei em pensamento levantando a mão direita. Nem vontade de
dormir eu tinha mais. Fiquei lá na internet vendo qualquer coisa e só
fui deitar mesmo quando o tédio veio. O outro dia seria sábado, então
não tinha que acordar cedo.
    Já deviam ser umas 10 da manhã quando o
velho veio me chamar. Odeio ficar assim, mas eu estava com um misto de
vergonha e "raivinha" dele...

    - Hora de acordar, minha dorminhoca... - Disse já com a mão nas
cobertas pra puxar.

    - Ai pai, hoje é sábado... me deixa dormir... - eu respondi com voz
de sono e sem abrir os olhos.

    - Mas já passam de 10:30, lembra que eu falei que íamos aproveitar o
dia? Pensei em darmos uma volta no parque e fazer algumas outras coisas,
que tal?

    - Ah, sei lá...

    - Hum... ainda tá magoadinha com papai, é? - Disse ele passando a
mão no meu rosto.
    Quando ele fala assim eu derreto por dentro, mas não gosto muito de
dar o braço a torcer, sou dura na queda!

    - Tente se colocar no meu lugar só um pouquinho. Não é fácil pra eu
me acostumar com o que aconteceu e...

    - Eu sei, amorzinho, - papai me interrompeu. - mas pense no lado
bom... pelo menos sua caminha não fica molhada e cheirando mal.

    - é, pode ser.

    - ah, filhota,  desfaça esse biquinho e vamos aproveitar o dia lindo
que está lá fora, isso vai te fazer distrair a cabeça também...

    Resolvi levantar sem nada dizer. Quando me mexi, senti o peso
daquela fralda.

    - Vamos ver se a bebê molhou a fraldinha? - Disse meu pai com uma
voz infantilizada.

    - Pai, pelo amor de Deus, eu já pedi pra você não me tratar assim!

    - ai de novo? Desculpa, filha... eu ainda vou me acostumar...

    - é bom, porque já basta eu ter que suportar a humilhação de usar
isso.

    Ele ficou quieto e começou a me despir. Pro meu azar, a fralda
estava quase vazando.

    - Nossa! Essa foi por pouco... - Disse ele removendo-a e me
limpando.

    - Que porcaria... - Disse eu baixinho e tampando a boca.

    - Como? Não ouvi, meu anjo... tire a mãozinha da boca pra falar.

    - Ahn, nada não, pai, só pensei alto...

    - Tá, agora vá se arrumar, mas não tome banho ainda. Deixe pra fazer
isso quando voltarmos porque vamos dar uma corridinha no parque.

    - Corridinha? ai ai... não gosto disso, mas vou fazer uma caridade
pro senhor...

    - Hum, como é generosa essa minha filhota... agora ande de uma vez
que depois do parque quero te levar pra almoçar naquele lugar que você
gosta.

    - Opa, aí a conversa muda...

    - Interesseira! Te pego, hein?

    - Depois tá, pai? Agora vou pro banheiro.

    Fui lá, escovei os dentes, ajeitei o cabelo, me vesti e desci. Ele
já estava me esperando com um pequeno sanduíche e um copo de coca.

    - Aqui está, pra você não ficar com tanta fominha até a hora do
almoço...

    - Ah, valeu, pai... mas você ainda continua falando comigo daquele
jeito...

    - Ai ai... um dia eu juro que aprendo. - Disse ele mordendo um
pedaço do seu sanduíche.

    Eu também comecei a comer em silêncio. Assim que terminamos,
juntamos as poucas louças que estavam na mesa, ajeitamos a cozinha e
saímos.
    Fomos andando até o parque. Quando estávamos quase chegando lá, meu
pai disse:

    - Vamos apostar uma corrida? Tudo bem que eu tenho quase certeza que
já ganhei, mas...

    - Iiii, nem vem! Eu corro mais que você, já não tem idade pra
sair a toda velocidade por aí! - Disse eu já largando sem nem esperar
ele tomar fôlego.

    - Espere, trapaceira! isso não vale...

    Eu já estava no mínimo há uns 50 passos à frente.

    - Vem me pegar, pai! Não diz que sabe correr? Então prova!

    Continuei correndo, mas como não estava muito acostumada, logo
cansei e ele me pegou.

    - Consegui, sua sem-vergonha! - Disse, me abraçando

    - Tá bom, vai... essa acabou comigo... - Eu rebati, ofegante.

    - Ow tadinha... que tal tomarmos uma água de coco agora?

    - ótima idéia.

    Compramos a água de coco, tomamos e depois ele falou:

    - Olha, filha, e se a gente for ver os patinhos como fazíamos quando
você era criança?

    - Você que sabe...

    - Tem certeza?

    - Vamos...

    Demos as mãos e fomos pra perto da lagoa olhar os lindos
patinhos que lá estavam. Nos sentamos na grama, papai passou o braço em
volta do meu ombro e quando olhei pro seu rosto, vi que estava com uma
expressão que eu não sabia descrever bem, mas parecia um pouco triste

    - O que houve, pai? Tá tudo bem?

    - Sim, filha... só acho que ando meio nostálgico... sabe, olhando os
patinhos aqui, igualzinho fazíamos quando você era pequenininha...

Eu cheguei mais perto e o abracei forte.

    - Pai, eu te amo muito... sei que um dia vou ter que crescer, mas
nunca vou deixar de ser sua filhinha...

    - Eu sei, meu anjo, a verdade é que pros pais os filhos realmente
nunca crescem e pra mim você vai ser sempre minha bebezinha... sabe,
ontem a hora que fui te arrumar pra dormir me deu uma coisa assim que...

    E aqui ele se calou e seus olhos encheram de lágrimas.

    - Pai, tem certeza que tá tudo bem?

    - Ahn, tá sim, filha... - ele disse e respirou fundo, como que pra
afastar as lágrimas.

    - Acho que já podemos ir... ainda quero te levar pra almoçar,
lembra?

    - Ah, é verdade, então vamos.

    Me levantei e quando ele fez o mesmo, como não tinha ninguém perto
eu o surpreendi com um daqueles meus abraços de urso tão seus
conhecidos.

    - Ai nossa, fazia tempo que você não me dava esse abraço! - Disse
com uma voz meio gemida porcausa do aperto.

    - Hum, não gostou? Devolve... - respondi com um biquinho do tipo só
pra fazer manha.

    - Quer mesmo que eu devolva? - Disse ele já me pegando e me rodando
ali mesmo no meio do parque.

    - ai ai,, para, para! Vou ficar tonta e além do mais ainda tem um
restinho do sanduíche que eu comi aqui e o senhor não quer que
volte, quer?

    Ele me soltou e só pra sacanear eu fingi que ia colocar o dedo na
garganta.

    - Ei, também não precisa forçar a amizade né, Alessia?

    - Ah, pai, só pra não perder o costume...

    - Uhum, sei... vai ver só...

    - Então tenta me pegar! - Eu disse, saindo em disparada.

    Ele veio atrás e dessa vez não conseguiu. Entrei em casa antes
e já fui subindo pra tomar banho. Só ouvi as risadas dele quando entrou.

    Depois que nós dois estávamos prontos, saímos dessa vez de carro e
fomos almoçar no lugar que eu mais gostava. Comemos umas batatas e
outras coisinhas também. Quando estávamos indo embora,
ele falou com aquele sotaque puxado que eu acho engraçado:

    - E então, italianinha da minha vida, que tal um gelato italiano
agora? Tem uma gelateria aqui perto...

    - Hum, se quiser eu topo...

    - Então vamos.

    Fomos lá e cada um pediu um tipo de sanduíche de sorvete com
bolacha. Comecei a comer devagar como sempre, até que uma hora meu
pai pegou um guardanapo e passou no meu rosto dizendo:

    - Sujou um pouquinho aqui, anjo...

    - Pai, era só ter me avisado disfarçadamente que eu limpava, não
precisava ter feito isso por mim.

    - Tá bom,, não precisa ficar bravinha... - disse ele me dando um
beijo babado de sorvete e me sujando mais ainda.

    - Pai! aí não, né? - Eu disse e fiz o mesmo com ele.
    - Pronto, agora estamos quites!

    Ele tentou forçar uma cara séria, mas não conseguiu. Então, nos
limpamos e fomos pra casa. Lá chegando, como ainda era cedo resolvi ir
pro computador.

    - Eita vício... - Falou ele lá da sala onde estava. - Se
puder, desce aqui pra gente assistir um filme mais tarde, tá?

    Me senti até um tanto culpada.

    - Ok, só vou ver se alguém me mandou alguma coisa e já desço... -
Falei me sentando na cadeira do computador.

    Realmente só entrei um pouquinho, vi o que tinha que ver e desci lá
pra assistir.

    - ó, até que enfim a madame arrumou um tempo pro pobre velho aqui
né?

    - Iiii olha o drama... e então, que filme vamos assistir, velho?

    - Olha, não fala assim comigo, garota!

    - Foi o senhor que se chamou disso primeiro, não tenho nada a ver
com a questão.

    - Hum, agora se faz de vítima, né? Pede desculpa... - Disse,
vindo pro meu lado com uma cara de quem ia aprontar comigo.

    - Eu não, não fiz nada...

    - A é? Vamos ver se pede desculpa ou não...

    Começou a me fazer muitas cócegas e eu não conseguia parar de rir.

    - E então?

    - Hahahahaha paraaaa!

    Em meio às risadas eu senti uma coisa que me deixou assustada,
comecei a me molhar! Dei um grito agudo.

    - O que aconteceu, filha? - Disse ele olhando pra baixo e já
vendo com os próprios olhos a resposta da pergunta.

    Eu não conseguia dizer nada, apenas comecei a chorar.

    - Calma, lindinha, vamos já limpar isso... não fique assim, foi
minha culpa!

    - Que tragédia... logo eu que não suporto nada sujo ainda mais em
mim!

    - Essas coisas podem acontecer... mas diga olhando nos meus olhos,
você se esqueceu de ir ao banheiro, Alessia?

    - Como assim? Claro que não... eu vou sempre que me dá vontade...

    - Tem certeza? Fica tanto nesse computador que eu tenho sérias
dúvidas se você vai ao banheiro.

    - Vou sim, pai... agora deixa eu ir me trocar, pelo amor de
Deus... - Disse eu já levantando e pegando o rumo do banheiro.

    - Ei,, só uma coisa, acho que já vou te pôr a fralda, vai que
acontece de novo?

    - AAAh tenha dó, né? Estamos no meio da tarde...

    - Eu sei, mas não vamos mais sair e é melhor prevenir. Ah,, e tem
outra. Quem dá a última palavra aqui sou eu e você vai colocar a fralda
agora e pronto!

    Quando ele fala assim é melhor eu ficar na minha... nunca levei um
tapinha nem de leve, mas tenho medo quando a bronca é nesse tom. Não me
restou outra saída a não ser ir pro banheiro e aceitar o que viria
depois. Tomei banho e quando ia saindo enrolada na toalha já estava ele
lá no meu quarto:

    - Venha aqui, amor, vamos colocar a fralda...

    - Ai meu Deus... por que isso? ainda não tá nem de noite...

    - Mas veja só, é melhor pôr agora, que aí se você ficar distraída
depois não tem perigo de acontecer de novo.

    - O que eu posso fazer, senão concordar?

    - Filha, tudo isso é pro seu bem, minha vida...

    Resolvi me calar. Não tinha jeito mesmo. Deixei que me colocasse a fralda
e fomos assistir um filme de comédia.

    Quando estava mais ou menos na metade ele acabou cochilando e
encostando a cabeça no meu ombro. Deixei, mas como vi que estava
perdendo uma parte engraçada do filme, o chamei:

    - Pai, você dormiu aí...

    - Hum... ai filha, desculpa... perdi muita coisa do filme?

    - Só umas partes engraçadas...

    Nessa hora eu resolvi dar uma zoada. Claro que não tinha acontecido
isso, mas só pra ver o que ele ia dizer, fingi que estava limpando meu
ombro como se estivesse babado.

    - Você dormiu tanto que chegou a me babar!

    - Ah, poxa vida, não acredito que fiz isso!

    - é, vai vendo. - E continuei "limpando" - Eu nunca fiz isso com
você...

    - Tem certeza que não? Eu sei de uma história que é justamente sobre
isso...

    - Duvido!

    - Ainda tenho a prova... uma vez quando você devia ter uns 3
aninhos, acordou chorando e dizendo que tinha bicho no seu quarto. Eu
não disse nada, apenas te peguei e te levei pra minha cama. Quando
acordei no dia seguinte tinha alguém com a boquinha na minha testa e meu
travesseiro todo melado hahahaha

    - AAAh, conta outra, essa não cola!

    - Vou te mostrar a prova do crime então...

    Ele levantou, foi até o quarto e voltou trazendo um album de fotos
com a capa vermelha escrito MEMÓRIAS e me mostrou uma foto onde
realmente estava eu ocupando só os travesseiros e o dele todo manchado.
Tentei disfarçar o pouquinho de vergonha que senti no fundo:

    - Essa coisa gorda aqui era eu?

    - Coisinha gordinha linda de papai, um pacotinho de fofura!

    - Hum, até que eu não era feia...

    Ele me imitou falando isso e completou:

    - Era a coisa mais linda do mundo, um retrato perfeito de sua mãe...

    - A mamãe... o senhor não fala muito dela... não tem nenhuma foto
pelo menos?

    - Não, filha, sofri muito quando ela se foi e não suportei nem
guardar as fotos. A única lembrança que tenho dela está olhando pra mim
agora...

    Não pude conter uma lágrima que quis sair. deixei ela rolar.

    - Eu queria tanto ver como ela era...

    - Basta se olhar no espelho, meu anjo... Seu rosto é igualzinho ao
dela...

    - Poxa vida... bom, vejo que lembrar dessas coisas te faz mal, então
não vamos mais falar disso, tá?

    - Tá bom filha... sua mãe é a pessoa que mais amei na vida antes de
você nascer... depois dela eu não consegui gostar de mais ninguém...

    - Chega pai... senão vou começar a chorar aqui...

    Nos abraçamos e ficamos ali por um bom tempo.






CONTINUA!!!

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